Tecnologia, matéria e regeneração no Future of Construction 2026, Marina Borges
Em maio de 2026, participei do Future/s of Construction, na ETH Zürich. Durante o encontro, pesquisadores, arquitetos, engenheiros e profissionais da indústria apresentaram investigações sobre inteligência artificial, fabricação digital, robótica, novos materiais, circularidade e os desafios ambientais da construção.
O plural de future/s talvez seja uma boa síntese do que encontrei ali.
Não existe um único futuro da construção. E, principalmente, esse futuro não parece estar associado simplesmente à incorporação de mais tecnologia. Entre robôs, estruturas otimizadas, sistemas construtivos híbridos, inteligência artificial e processos avançados de fabricação, aparecia uma questão mais ampla: como projetar e construir de outra maneira diante dos limites materiais e ambientais do presente?
Ao longo das apresentações, algumas perguntas reapareciam sob diferentes perspectivas. Como utilizar menos recursos? Como prolongar os ciclos da matéria? Como reutilizar aquilo que já foi construído? E como aproximar tecnologia e inteligência ecológica?

Future/s of Construction, ETH Zürich, maio de 2026. Foto: Marina Borges.
Da forma à matéria
Durante muito tempo, o design computacional esteve associado principalmente à produção de geometrias complexas. A possibilidade de gerar formas antes difíceis de desenhar ou fabricar tornou-se uma das imagens mais reconhecíveis da arquitetura digital.
No Future/s of Construction, essa discussão parecia ter avançado.
A pergunta já não era apenas o que conseguimos desenhar?, mas quanto material essa solução utiliza, como será fabricada, de onde vêm seus componentes e o que acontecerá com eles depois.
Em diferentes pesquisas apresentadas no congresso, otimização estrutural, análise computacional e fabricação digital apareciam integradas em um mesmo processo. Parâmetros estruturais e materiais passam a informar diretamente a geometria e, em seguida, os dados necessários à produção.
Nos trabalhos sobre estruturas de concreto, por exemplo, a otimização topológica aparecia associada à redução do consumo de material e a processos de fabricação digital. Corte CNC, produção de fôrmas, montagem e fabricação robotizada deixavam de ser etapas posteriores ao projeto para integrar uma cadeia contínua entre concepção, análise e produção.
Nesse contexto, a computação deixa de ser apenas uma ferramenta para produzir complexidade formal. Ela pode se tornar uma ferramenta para construir com precisão e utilizar matéria onde ela é efetivamente necessária.

Integração entre otimização estrutural, dados de produção e fabricação digital apresentada no Future/s of Construction. Foto: Marina Borges.
O que já existe também é matéria de projeto
Outra discussão importante atravessava os trabalhos sobre circularidade.
Grande parte do ambiente construído já existe. Edifícios, estruturas e componentes constituem enormes estoques de materiais incorporados às cidades. O problema é que frequentemente sabemos muito pouco sobre eles.
Que materiais estão ali? Em que quantidade? Em quais condições? O que pode ser desmontado? O que pode ser reutilizado?
Uma das pesquisas apresentadas partia justamente dessa condição: o estoque existente não é necessariamente escasso. Muitas vezes ele é ilegível.
Inteligência artificial, visão computacional, modelos digitais e passaportes de materiais podem ajudar a identificar componentes existentes, registrar suas características e avaliar possibilidades de reutilização. O edifício deixa então de ser visto apenas como um objeto destinado, ao final de sua vida útil, à demolição. Ele pode ser compreendido como um estoque temporário de recursos.
Essa mudança altera a própria ideia de projeto.
Projetar pode significar não apenas determinar o que será produzido, mas também descobrir o que já temos e imaginar como aquilo pode voltar a fazer parte de outro sistema.
Circularidade, nesse sentido, não acontece depois do projeto. Ela começa a modificar a maneira como projetamos.

Do estoque construído à reutilização: dados, identificação de materiais e circularidade como parte do processo de projeto. Foto: Marina Borges.
Da sustentabilidade à regeneração
Mas reduzir impactos talvez já não seja suficiente.
Outra discussão presente no congresso e nas pesquisas encontradas na ETH aponta para uma passagem importante: de uma abordagem centrada apenas na redução de danos para perspectivas que procuram pensar regeneração, ciclos materiais e relações ecológicas.
Essa agenda aparecia também fora do auditório.
No campus, o programa ETH Net Zero explicitava metas relacionadas à redução de emissões, energia, mobilidade, infraestrutura e cadeias de fornecimento. Ao mesmo tempo, pesquisas e protótipos exploravam materiais de baixo carbono e combinações pouco convencionais entre conhecimento material e desenvolvimento tecnológico.
Um dos exemplos que encontrei foi uma investigação sobre componentes híbridos de madeira e terra, apresentada sob a ideia de regenerative construction. Em vez de tratar inovação como sinônimo de materiais cada vez mais industrializados e tecnologicamente complexos, a pesquisa colocava materiais naturais dentro de uma agenda contemporânea de desempenho, prototipagem e redução de carbono.
Em outro trabalho, a expressão ecological intelligence aparecia diretamente relacionada à tomada de decisão na construção.
Isso coloca uma questão importante para o design computacional.
Se nossos modelos conseguem incorporar geometria, estrutura, custo e desempenho, por que não incorporar também carbono, disponibilidade de recursos, circularidade, ciclos materiais e condições ecológicas?
O modelo computacional pode deixar de ser apenas um mecanismo para otimizar um objeto e passar a ajudar a compreender as relações entre aquilo que construímos e os sistemas dos quais essa construção depende.

Componentes híbridos de madeira a discussão sobre construção regenerativa na ETH Zürich. Foto: Marina Borges.
Entre alta tecnologia e conhecimento material
Talvez uma das imagens mais interessantes do encontro tenha sido justamente o contraste entre tecnologias extremamente avançadas e materiais profundamente elementares.
Robôs trabalhando com madeira. Sistemas computacionais orientando estruturas de concreto com menor consumo de material. Inteligência artificial identificando componentes de edifícios existentes. Terra, madeira e fibras naturais reaparecendo dentro de discussões sobre inovação construtiva.
Na palestra de Dorte Mandrup, intitulada Industrial Craftsmanship and the Tectonics of Prefabrication, industrialização, conhecimento construtivo e tectônica apareciam lado a lado.
Essa aproximação é significativa.
O futuro da construção não precisa significar a substituição da matéria pela informação, do trabalho humano pela automação ou do conhecimento tradicional pela tecnologia.
Pode significar justamente novas combinações entre esses campos.
Tecnologias contemporâneas podem permitir olhar novamente para materiais conhecidos, compreender melhor seu comportamento, trabalhar com suas variações e desenvolver novas maneiras de utilizá-los.
Nesse sentido, inovação não está necessariamente no material mais novo ou na máquina mais sofisticada. Pode estar na relação que conseguimos construir entre conhecimento, matéria e tecnologia.

Dorte Mandrup durante a palestra “Industrial Craftsmanship and the Tectonics of Prefabrication”. Future/s of Construction, ETH Zürich. Foto: Marina Borges.
Humanos e máquinas
A robótica também apareceu sob uma perspectiva menos simplista do que a ideia de substituir trabalho humano por automação.
Um dos trabalhos apresentados investigava a colaboração entre humanos e robôs na reconfiguração de estruturas de madeira. A questão não era simplesmente automatizar uma sequência de movimentos.
Construir envolve irregularidades, materiais que variam, situações imprevistas e decisões que nem sempre podem ser antecipadas integralmente em um modelo.
O interesse passa então da automação absoluta para a colaboração entre diferentes capacidades.
Precisão, cálculo e repetibilidade podem ser computacionais. Percepção, adaptação, julgamento e conhecimento material continuam profundamente associados à experiência humana.
Ao mesmo tempo, essas tecnologias aproximam etapas que historicamente foram separadas. Projeto, cálculo, fabricação e montagem começam a compartilhar um mesmo fluxo de informação.
A fronteira entre quem projeta, quem calcula e quem fabrica também se torna menos rígida.

Robótica colaborativa aplicada à reconfiguração de estruturas de madeira. Future/s of Construction, ETH Zürich. Foto: Marina Borges.
Construir futuros
Saí do Future/s of Construction com a impressão de que algumas das transformações mais relevantes da construção contemporânea estão acontecendo justamente nas fronteiras.
Entre computação e matéria. Entre fabricação digital e conhecimento artesanal. Entre inteligência artificial e decisão humana. Entre novos materiais e recursos existentes. Entre eficiência, circularidade e regeneração.
Talvez seja por isso que falar apenas em transformação digital já seja insuficiente.
O que estava em discussão na ETH não era simplesmente como incorporar novas tecnologias à construção, mas como utilizá-las para rever processos que durante décadas foram orientados pelo consumo intensivo de matéria, pela linearidade e pela separação entre projeto, produção e descarte.
Nesse contexto, otimização, fabricação digital, inteligência artificial e robótica ganham interesse quando deixam de ser fins em si mesmas e passam a responder a outras perguntas: como construir com menos recursos? Como prolongar a vida da matéria? Como projetar para desmontar, reutilizar e transformar? Como incorporar critérios ecológicos às decisões de projeto?
Talvez a principal questão colocada pelo congresso esteja justamente no plural de seu título, Future/s of Construction.
Não se trata de antecipar um futuro inevitável da construção. Trata-se de reconhecer que existem diferentes futuros possíveis e que as tecnologias que desenvolvemos hoje participam ativamente da escolha entre eles.
A questão, portanto, não é apenas o que seremos capazes de construir. É o que fará sentido continuar construindo.